mini-ivy, maxi-ego ° 24/02/2014

minha mãe deixou na portaria uma sacola com vídeos da minha infância, que ela havia passado de vhs para dvd:  meu aniversário de seis anos, e minha formatura do prézinho, 1991, grande ano pra mini ivy, portanto.

vi primeiro o do meu aniversário, meus olhos marejaram, eu via aquele vestidinho azul, a meia calça branca, a tiara com um laço, meu cabelo, meu nariz, minha voz, meu jeito, ansiedade, medo e raiva.

daquele dia, não me lembro de nada, mas me lembro de tudo. especialmente do vídeo, vi um milhão de vezes, mas há tanto tempo…

mini ivy gritava, com as mãozinhas na cintura, mandando o palhaço ir trabalhar, batia nos amiguinhos e simplesmente virava as costas e deixava os outros falando sozinhos, ou tinha as costas curvadas de quem duvida de si mesmo, coisas que se repetem até hoje. é mais ou menos assim que a ivy “adulta” lida com as coisas. se é que dá pra chamar isso de lidar.

observar aquela menininha com a minha cara, fazendo as coisas que eu faço, foi tão constrangedor, que eu chorei. chorei de saudade, ao ver minhas avós, minhas tias, meus amiguinhos, mas eu chorei mesmo de constrangimento. de ser aquela mesma pirralha mandona diversas vezes e encarar aquilo de frente, meio que em terceira pessoa, foi um choque. ficou claro a quem as neuroses e indulgências serviam.

e eu achava que era uma alma atormentada e mal compreendida. talvez eu seja, mas não há justificativa pra ser uma chata, ou egoísta, ou se impor sobre os outros. isso é só o meu ego.

hora de deixar todo mundo brincar, abaixar o tom de voz afetado e ser o líder calmo, assertivo e não confrontador que minha vida precisa.

sair de dentro de mim, deixar de ser escrava do meu ego. é preciso olhar pra fora, ouvir os outros, estar presente, dar amor nas ações.

ouvir com atenção e sem julgamento, é amor. uma boa aula, é amor. me dirigir aos outros com respeito e um sorriso, é amor.

mas antes do amor, vem o amor próprio. quem se ama muito, não precisa se afirmar, ou se sobrepor e é aí que sai o ego, que deixa você em uma ilha, e entram as pontes que favorecem à apróximação, à atenção plena e naturalmente as coisas mudam, mas porque eu mudei o modo como enxergo as coisas.

Advertisements

Sua mãe

Toda vez que eu me sinto péssima, eu tenho o costume de falar “quero a minha mãe ” mesmo que por dentro eu ria que eu jamais poderia querer essas coisas da minha mãe, na verdade.

Hoje ficou claro, enquanto subia pelo elevador após encontrar uma amiga e seu marido. Eu pensei “quero minha mãe ” e me perguntei “o que eu quero da minha mãe?” Acolhimento. Asseio. Eu estava um trapo, descabelada, mal vestida e sem escovar o dente. Mamãe jamais deixaria isso acontecer. Também to precisando de um colinho, de carinho e tratamento amoroso encorajador.

Quando me falta colo, empurrão sincerão empoderador, higiene pessoal, limpeza na casa, organização na vida, realização pessoal, é quando eu tenho que ser a minha própria mãe.

Peguei a ivy criança , conversei com ela e disse que agora eu cuidaria dela, que eu seria a mãe dela e que tudo ia dar certo. Nos abraçamos, beijei muito aquela cabecinha com o mesmo carinho que beijo meu filho, de fato.

War, sister, is just a shot away

Estou de mal com o mundo. Os monstros embaixo da minha cama, as camas nos mundos.

“Como está tudo aí no seu mundo?”Me perguntam.

No meu mundo é guerra, é pai que mata filho, é filho que mata a mãe, é soda cáustica no leite e veneno no legume. Tudo me dá um medo da porra. As amigas fugiram, a família se encheu, os vizinhos evitam o contato visual. Sou persona non grata. Todos querem me atacar.

No meu mundo é amor, é tanto amor. É pureza no sorriso do meu filho, é uma felicidade que chega a dar medo. É um abundar que vaza das tetas alegres em alimentar a novidade. Meu coração chega a parar de tanta felicidade em poder ser guia. Trazer o que há de mais bonito e gentil para construir seu caminhar. Meu filho quer o meu colo, que orgulho, que delicia. Que irritante.

No meu mundo é a feiúra das ancas carcomidas, das feridas que purgam. O choro feio da infantiloide degenerada. É fumaça, ruído, latido de cachorro que não acaba mais. Podridão, desperdício, gordura e morte.

No meu mundo tem cores inenarráveis, luzes cristalinas a tilintar, céus de paraíso. É tanto sorriso. Comida da verde, planta que cura, alimento que sana, água que purifica. O vento é amigo. Natureza, meu ser selvagem banhando a bunda sensual no rio, ao sol. Morar num abraço. Lar feliz de amor.

No meu mundo é muito medo de partir e não ter mais forças pra ficar. É vontade vital de existir, vontade brutal de desaparecer. Quero ser hermitã y celebridade. Celebre senhora que não manja de porra nenhuma em sua nova palestra.

Eu

Minha esquisitice é meu protesto. Minha vida é meu protesto.

Mesmo deprimida, eu existo. Meu corpo gordo existe. MEsmo nas dificuldades da mente, eu falo. Mesmo matando um leão por dia, eu venço (ainda que o leão não tenha morrido).

Eu estarei ocupando meu espaço. Fuck you.

Paradoxo da Independência do Bebê

O bebê fará 8 meses em uma semana. Chega um momento (por pressão social, naturalmente e cada um no seu ritmo) em que a independência pro bebê começa a se tornar necessária. E eis que passando por um incômodo constante e sem nome, me encontro, no auge da minha maternidade 24h, com um artigo que falava sobre o momento de voltar ao trabalho, e como o bebê não pode ser o seu “tudo”. Lá dizia sobre não se afastar do adulto, e que muito da identidade do adulto, no mundo atual, está ligado à profissão. Eu, logo eu, recebendo salário do pai pra poder cuidar do bebê tranquila (não fosse todo o peso da humilhação de precisar aceitar isso).

Essas informações, concomitantemente com um vídeo enviado pela minha mãe, de um psicólogo no programa do Ronnie Von, falando sobre pais permissivos e os filhos tiranos e humilhados pela dependência total que têm nos pais. Me senti atingida por esse conteúdo tão sensível, ainda mais jogado, sem nenhuma apatia. Como alimentar um cão jogando a carne por cima do portão. Tudo isso se somou na minha cabeça.

Chegou a hora de assumir e sumir. Pagar o preço da independência, torcer pelo melhor, mas saber ter força para o pior. Porque não dá mais pra repetir esse erro. Porque eu não posso voltar pro escritório. Seria como sair pra dar independência ao bebê, me tornando o bebê que nunca saiu de perto do pai.